ISSN on-line: 2358-288X
Reprodução & Climatério Reprodução & Climatério
Reprod Clim 2017;32:71-7 - Vol. 32 Núm.2 DOI: 10.1016/j.recli.2017.01.003
Artigo original
Alteração menstrual e qualidade de vida em professoras da Universidade Federal do Rio Grande, Brasil
Menstrual changes and quality of life of professors from Federal University of Rio Grande, Brazil
Letícia Maria da Silva Almeidaa,, , Samuel C. Dumithb
a Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Rio Grande (FURG), Rio Grande, RS, Brasil
b Programa de Pós‐Graduação em Saúde Pública (PPGSP), Universidade Federal de Rio Grande (FURG), Rio Grande, RS, Brasil
Recebido 12 Novembro 2016, Aceitaram 16 Janeiro 2017
Resumo
Objetivo

Analisar a associação entre os distúrbios menstruais e a qualidade de vida (QV) das professoras da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

Métodos

Estudo observacional, transversal e quantitativo. A QV foi analisada pelo questionário The Medical Outcomes Study 36 – Item Short Form Health Survey (SF‐36). Além desse instrumento, foi usado um questionário semiestruturado, o qual inquiriu sobre as demais variáveis analisadas. Os dados foram transferidos para o pacote Stata, versão 11.2, no qual foram feitos os procedimentos estatísticos por meio do teste de análise de variância.

Resultados

A amostra contou com 104 de 316 (32,9%) professoras que trabalham nos campi da FURG em Rio Grande, RS, Brasil. Quanto aos dados relacionados aos distúrbios menstruais, 42,3% (IC95%, 32,7‐52) da amostra já apresentaram alteração do ciclo menstrual e apenas três participantes faziam terapia de reposição hormonal. Os resultados apontaram que, para os domínios vitalidade e aspectos emocionais, não houve associação com alteração no ciclo menstrual para nenhuma característica estudada. Em todos os outros domínios do SF‐36 verificou‐se maior QV para mulheres que não apresentaram alteração do ciclo menstrual.

Conclusões

Ter distúrbio menstrual impactou negativamente a qualidade de vida das professoras da FURG.

Abstract
Objective

the purpose of this study was to analyze the association between menstrual disorders and QOL of the teachers of the Federal University of Rio Grande (FURG).

Methods

this is an observational, cross‐sectional and quantitative study. QOL was assessed by questionnaire called The Medical Outcomes Study 36‐ item Short Form Health Survey (SF‐36). In addition to this instrument was used a semi‐structured questionnaire, which asked about the other variables analyzed. The data were transferred to the package Stata version 11.2, where statistical procedures were performed by analysis of variance.

Results

the sample included 104 of 316 (32.9%) teachers working in campuses FURG in Rio Grande, RS, Brazil. As for data related to menstrual disorders, 42.3% (95% CI 32.7 to 52.0) of the sample already had abnormal menstrual cycle and only three participants performed hormone replacement therapy. The results showed that, for the domains vitality and emotional aspects, there was no association with changes in the menstrual cycle for any characteristic studied. In all other domains of the SF‐36 there was a higher QOL for women who did not have changes in the menstrual cycle.

Conclusions

menstrual disorder have negatively impacted the quality of life of teachers FURG.

Palavras‐chave
Qualidade de vida, Mulheres, Ciclo menstrual
Keywords
Quality of life, Women, Menstrual cycle
Introdução

As alterações menstruais são descritas na literatura há muito tempo pela expressão distúrbios menstruais. O autor que primeiro fez a descrição dos distúrbios da forma que são concebidos hoje foi Schroeder; ele cita as três características do ciclo menstrual: periodicidade, intensidade e duração.1 A periodicidade refere‐se ao intervalo de tempo entre os sangramentos; a intensidade equivale à quantidade de sangue eliminada durante a menstruação; a duração é o número de dias em que se dão as perdas sanguíneas. A terminologia usada para os distúrbios menstruais foi elaborada por Opitz em 1936.1

Distúrbios menstruais constituem importante problema clínico, afetam 25% a 30% das mulheres durante sua vida reprodutiva.2 Na literatura existem poucos estudos de base populacional que descrevam a prevalência desse tipo de distúrbio. Além disso, para a maioria dos estudos disponíveis, a prevalência é obtida por meio do relato das mulheres sobre a sua percepção de perda sanguínea. Um estudo do extremo sul do Brasil apontou ampla a variação (1% a 52%) de prevalência de distúrbios menstruais que oscilou conforme o critério de classificação.3 Em São Paulo um trabalho, que usou dados dos motivos de consultas aos ginecologistas e obstetras, apontou taxas entre 20% e 40% das consultas por queixas relacionadas aos sangramentos menstruais irregulares.4

Estudos indicam repercussões importantes na qualidade de vida de mulheres em idade fértil que têm alterações de ciclo menstrual em decorrência das consequências ao estado de saúde física como deficiência de ferro (a principal causa é o hiperfluxo menstrual); resistência insulínica; fator de risco para hipertensão arterial, hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia e angioplastia são alguns dos reflexos.2,5

A proposta deste estudo foi analisar a associação entre os distúrbios menstruais e a qualidade de vida das professoras da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

Métodos

Este estudo teve caráter observacional do tipo transversal com abordagem quantitativa. Foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa na Área da Saúde (Cepas) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) sob o número 72/2015 (CAAE: 48819115.1.0000.5324). Todas as professoras da FURG que estavam em atividade e atuavam nos campi de Rio Grande (campus Carreiros e campus Saúde) no segundo semestre de 2015 foram convidadas a participar. Foram excluídas da análise de dados as mulheres maiores de 50 anos, já que essa é a média de idade em que as mulheres brasileiras entram na menopausa.6

Os dados foram coletados de outubro e novembro de 2015. Todas as professoras elegíveis receberam por e‐mail um convite para participar da pesquisa. Nesse mesmo e‐mail vinha um link que remetia ao questionário empregado na pesquisa. Esse questionário foi gerado pelo Google Docs e era preenchido no próprio computador, bastava ter conexão com internet para abrir e enviar. Antes de responder o questionário, as professores deveriam assinalar que consentiam em fazer parte do estudo. Não foi coletada informação referente a nome, nem número de matrícula, as respostas foram anônimas. O preenchimento completo do questionário levava de cinco a 10 minutos.

A qualidade de vida das participantes foi analisada por meio do questionário The Medical Outcomes Study 36 – Item Short Form Health Survey (SF‐36), o qual é padronizado, genérico de avaliação de qualidade de vida, de fácil entendimento e aplicabilidade. É formado por 36 itens, englobados em oito domínios: capacidade funcional, aspectos físicos, dor, estado geral da saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental. Apresenta um escore final de 0 a 100, em que o 0 corresponde ao pior estado geral de saúde e 100 ao melhor estado de saúde.7 Foi traduzido pelo método de back translation em 1999 e é aplicado em diversas pesquisas, abrange múltiplas populações, em condições distintas.8

A variável de exposição principal neste estudo foi apresentar alteração no ciclo menstrual. Essa informação foi autorreferida por meio de uma pergunta específica. Para a coleta das demais variáveis (estado civil, titulação, instituto, regime de trabalho, tempo de trabalho, tabagismo, atividade física no lazer e obesidade) foi empregado um questionário semiestruturado. Todas as perguntas eram fechadas, devia o respondente assinalar uma das opções. A obesidade foi definida a partir de peso e altura autorreferidos pelo índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30kg/m2.

As respostas foram exportadas para um arquivo em Excel, que posteriormente foi transferido para o pacote estatístico Stata, versão 11.1, no qual foram feitas a limpeza do banco, a criação das variáveis e a análise dos dados. Para a análise descritiva, empregou‐se frequência absoluta e relativa. A análise do escore médio (e desvio‐padrão, DP) de cada domínio de qualidade de vida de acordo com a presença de alteração no ciclo menstrual foi feita por meio do teste de análise de variância. Isso foi feito para cada variável estudada. O nível de significância estatístico usado foi de 5% para testes bicaudais.

Resultados

A amostra contou com 104 de 316 (32,9%) professoras que trabalham nos campi da FURG em Rio Grande (RS). A maioria das mulheres era casada (62,5%), apresentava titulação de doutorado (71,1%), tinha regime de dedicação exclusiva (78,9%), trabalhava em outros institutos que não os da saúde (86,5%) e grande parte lecionava havia menos de cinco anos na instituição (42,3%). Mais de dois terços (71,6%) relataram praticar alguma atividade física no seu tempo livre (tabela 1). Quanto aos dados relacionados aos distúrbios menstruais, 42,3% (IC95%, 32,7‐52) da amostra relataram já ter apresentado alteração do ciclo menstrual e apenas três participantes faziam terapia de reposição hormonal.

Tabela 1.

Características das professoras da Universidade Federal de Rio Grande (FURG), Rio Grande, RS, 2015 (n=104)

Variável  Frequência 
Estado civil
Solteira, separada, viúva  39  37,5 
Casada  65  62,5 
Doutorado
Não  30  28,9 
Sim  74  71,1 
Instituto
Saúde  14  13,5 
Demais institutos  90  86,5 
Dedicação exclusiva
Não  22  21,2 
Sim  82  78,9 
Tempo de trabalho na instituição
< 5 anos  44  42,3 
5 a 9 anos  39  37,5 
≥ 10 anos  21  20,2 
Tabagismo
Não  98  94,2 
Sim  5,8 
Atividade física no lazer
Não  40  28,4 
Sim  101  71,6 
Obesidade
Não  91  87,5 
Sim  13  12,5 
Alteração do ciclo menstrual
Não  60  57,7 
Sim  44  42,3 

A tabela 2 mostra a associação entre as variáveis descritas acima com os domínios “capacidade funcional”, “aspecto físico” e “dor”. Para o domínio “capacidade funcional”, as mulheres sem alteração de ciclo menstrual que eram solteiras, trabalhavam entre cinco e nove anos na FURG, tinham doutorado, não referiram tabagismo e não eram obesas obtiveram um maior escore de qualidade de vida do que aquelas com distúrbio menstrual. As variáveis ser solteira e praticar atividade física no lazer foram associadas a uma maior qualidade de vida no domínio “aspectos físicos”, nas mulheres que não apresentavam alteração de ciclo menstrual em relação àquelas com alteração. Referente ao domínio “dor”, somente as que trabalhavam nos demais institutos que não os da área da saúde se associaram a uma maior qualidade nas mulheres sem alteração no ciclo menstrual em comparação com seus pares.

Tabela 2.

Associação entre alteração no ciclo menstrual e o escore de qualidade de vida nos domínios capacidade funcional, aspectos físicos e dor, de acordo com as variáveis analisadas, entre professoras da Universidade Federal de Rio Grande, RS, 2015 (n=104)

Variáveis  Capacidade funcionalAspectos físicosDor
  Ciclo normal  Ciclo alterado  Ciclo normal  Ciclo alterado  Ciclo normal  Ciclo alterado 
  Média (DP)  Média (DP)  Média (DP)  Média (DP)  Média (DP)  Média (DP) 
Estado civil  p=0,01p=0,01   
Solteira, separada, viúva  88,5 (11,1)  73,8 (23,6)  91,3 (23,4)  64,1 (40,8)     
Doutorado  p=0,01       
Sim  90,0 (7,7)  76,2 (7,4)         
Instituto  p=0,01    p<0,01
Saúde  94,5 (7,6)  73,8 (17,0)      79,0 (9,9)  38,0 (19,2) 
Tempo de trabalho na instituição  p=0,04       
5 a 9 anos  86,3 (16,9)  72,1 (23,3)         
Dedicação exclusiva  p=0,04       
Sim  87,5 (14,3)  79,6 (19,2)         
Tabagismo  p=0,01       
Não  88,2 (13,2)  79,3 (19,3)         
Atividade física no lazer      p=0,01   
Sim      98,5 (6,1)  76,3 (33,8)     
Obesidade  p=0,01       
Não  89,2 (12,7)  80,4 (18,6)         

Na tabela 3, consta a associação das variáveis analisadas com os seguintes domínios de qualidade de vida: “estado geral de saúde”, “aspectos sociais” e “saúde mental”. Observou‐se que as variáveis ser solteira, pertencer aos institutos de ensino da área da saúde, trabalhar entre cinco e nove anos na FURG sob regime de dedicação exclusiva, ter titulação de doutora, praticar atividade física, não ser tabagista ou obesa foram associadas a um maior escore de qualidade de vida para o “estado geral de saúde” nas mulheres que não apresentavam alteração de ciclo menstrual em relação àquelas que apresentavam alteração. As mulheres sem alteração no ciclo menstrual, que eram solteiras e não tinham doutorado apresentaram maior escore de qualidade de vida no domínio “aspectos social”, comparadas com o grupo com alteração. Ser solteira, trabalhar sob regime de dedicação exclusiva e praticar atividade física no lazer foram associados a maior escore de qualidade de vida no domínio “saúde mental” nas mulheres que não apresentavam alteração de ciclo menstrual em oposição às professoras com alteração do ciclo.

Tabela 3.

Associação entre alteração no ciclo menstrual e o escore de qualidade de vida nos domínios estado geral da saúde, aspectos sociais e saúde mental, de acordo com as variáveis analisadas entre professoras da Universidade Federal de Rio Grande, RS, 2015 (n=104)

Variáveis  Estado geral da saúdeAspectos sociaisSaúde mental
  Ciclo normal  Ciclo alterado  Ciclo normal  Ciclo alterado  Ciclo normal  Ciclo alterado 
  Média (DP)  Média (DP)  Média (DP)  Média (DP)  Média (DP)  Média (DP) 
Estado civil  p=0,01p<0,01p=0,03
Solteira, separada, viúva      78,8 (21,1)  56,3 (22,8)  67,1 (16,7)  54,8 (16,3) 
Casada  74,1 (15,4)  63,2 (16,9)         
Doutorado  p=0,01p=0,04   
Não      75,0 (23,4)  57,7 (20,8)     
Sim  73,3 (15,8)  62,2 (20,8)         
Instituto  p<0,01       
Saúde  81,2 (13,2)  37,3 (18,6)         
Tempo de trabalho na instituição  p=0,03       
5 a 9 anos  74,7 (17,3)  60,8 (19,5)         
Dedicação exclusiva  p=0,04 e p=0,02    p=0,03
Não  72,9 (16,0)  57,1 (15,4)      72,9 (18,4)  55,5 (12,9) 
Sim  71,6 (16,6)  61,4 (21,1)         
Tabagismo  p<0,01       
Não  72,0 (16,6)  59,8 (19,9)         
Realiza atividade física no lazer  p=0,04    p=0,04
Não  65,7 (17,4)  52,6 (19,1)         
Sim          71,1 (15,8)  62,6 (17,2) 
Obesidade  p=0,01       
Não  72,6 (16,7)  61,9 (20,1)         

Destaca‐se que para os domínios “vitalidade” e “aspectos emocionais” não houve associação estatisticamente significativa com qualquer variável analisada.

Discussão

O presente estudo teve como proposta verificar as repercussões dos distúrbios menstruais na qualidade de vida das professoras da FURG. Os resultados apontaram uma porcentagem de distúrbios menstruais em 42,3% (IC95%, 32,7‐52) da amostra estudada. Número semelhante ao encontrado em pesquisa feita em Pelotas, Rio Grande do Sul, que aponta a prevalência global de distúrbios menstruais, nos seis meses anteriores ao estudo, de 46,4% (IC95%: 43,3‐49,4).9 Os dados indicaram que três participantes fizeram terapia de reposição hormonal. Contudo, não traz interferência nos resultados da pesquisa, pois estudos apontam que não há diferenças entre usuárias e não usuárias de terapia hormonal nos domínios avaliados por meio do SF‐36.10

Em relação aos domínios do SF‐36 (capacidade funcional, aspectos físicos, dor, estado geral de saúde, aspectos sociais, saúde mental), que apresentaram diferença significativa, obteve maior escore de qualidade de vida o grupo de mulheres que não relatou distúrbios no ciclo menstrual. As alterações do ciclo menstrual podem impactar na percepção da qualidade de vida da mulher em razão das repercussões nos aspectos físicos e na percepção geral da saúde.11,12

O distúrbio menstrual trouxe impacto negativo no escore da qualidade de vida para todos os domínios do SF‐36, que apresentaram diferença estatística entre os grupos, provavelmente pela flutuação hormonal (uma das causas de alterações no ciclo menstrual) que provoca mudanças físicas e psíquicas importantes, as quais prejudicam a qualidade de vida da mulher e seu convívio familiar e social.13

Entre as participantes que não relataram alteração de ciclo menstrual, aquelas que conviviam com parceiro(a) alcançaram maior número de pontos no questionário de qualidade de vida nos domínios “capacidade funcional”, “aspectos físicos”, “estado geral de saúde”, “aspectos sociais” e “saúde mental”. As mudanças do papel feminino na sociedade contemporânea possivelmente são as principais razões para que essa variável se destacasse. Observou‐se que nas últimas décadas inúmeras transformações demográficas, sociais, culturais, políticas e econômicas, tais como a queda das taxas de fecundidade, o envelhecimento da população, o aumento do número de famílias chefiadas por mulheres, a expansão da escolaridade, ocasionaram mudanças também nos valores relativos ao papel das mulheres na sociedade e na família.14

Transformações que trouxeram repercussões nos padrões culturais e nos valores relativos ao papel social da mulher, intensificadas pelo impacto dos movimentos feministas desde os anos 1970 e pela presença cada vez mais atuante das mulheres nos espaços públicos, alteraram a constituição da identidade feminina. Essas mudanças proporcionaram maior independência na tomada de decisões, financeira e social, trouxeram consequências em uma maior qualidade de vida para essas mulheres solteiras.14 As mulheres casadas teriam uma maior carga de trabalho visto a manutenção do modelo de família patriarcal no qual as mulheres são as responsáveis pelas tarefas domésticas e socializadoras, bem como a persistência de uma identidade construída em torno do mundo doméstico.14

Foi encontrado nos resultados que trabalhar entre cinco e nove anos para as professoras que não tinham distúrbios menstruais proporcionou maior qualidade de vida nos domínios “capacidade funcional” e “estado geral de saúde”. Estudos apontam como causa principal o fato de esse tempo de serviço traduzir estabilidade no emprego, visto se tratar de instituição pública, e esse período já ter ultrapassado o estágio probatório (36 meses) exigido e maior experiência como docente que lhes trariam mais segurança. Na FURG são feitas seis avaliações para o estágio probatório, uma a cada semestre. Após esse período pesquisas apontam que essa fase, compreendida como estabilização (entre os quatro e seis primeiros anos), significa o compromisso definitivo com a profissão escolhida da tomada de responsabilidade; ou seja, é nessa fase que o professor se depara com sentimentos de confiança, flexibilidade, prazer, sentimento confortável de ter encontrado um estilo próprio de ensino, segurança e o sentimento de competência.15

Não apontar ciclo menstrual alterado e trabalhar sob o regime da não dedicação exclusiva impactou em maior qualidade de vida para o domínio “estado geral de saúde”, confirmou que os estudos apontam ser uma rotina mais difícil, especialmente nas instituições públicas, de ministrar aulas; corrigir trabalhos e provas; fazer pesquisas; redigir artigos; participar de eventos; orientar a produção de trabalhos científicos; participar de projetos de extensão; além da busca de atualização constante de novos conhecimentos, na tentativa de acompanhar as velozes mudanças do mundo moderno. Todas essas atividades, hoje, são marcadas pela avaliação quantitativa vinculada ao financiamento de pesquisas conforme a produtividade.14 No entanto, trabalhar sob o regime de dedicação exclusiva e não apresentar distúrbio menstrual contribuíram para maior qualidade de vida para os domínios “capacidade funcional”, “estado geral de saúde” e “saúde mental”. Sugere‐se que essas profissionais têm o sentimento de segurança no trabalho ao qual estão associados o sentimento de estabilidade no trabalho e a possibilidade de cumprir compromissos estabelecidos.16

A prática de atividade física no lazer dentre as mulheres que não relataram alteração de ciclo menstrual foi relacionada a maior escore de qualidade de vida nos domínios “aspectos físicos” e “saúde mental”. Isso pode ser facilmente justificado na literatura, que aponta que junto ao condicionamento físico ocorre a sensação de bem‐estar em contraponto ao sedentarismo que tende a apresentar níveis progressivamente menores de aptidão física, de saúde e de qualidade de vida.17 Porém, não praticar atividade física e não ter distúrbio menstrual foram associados à qualidade de vida de forma positiva no domínio “estado geral de saúde”, em contraponto aos estudos encontrados na literatura.

Trabalhar nos institutos da área da saúde para as mulheres que não tinham alteração do ciclo menstrual impactou positivamente na qualidade de vida nos domínios “capacidade funcional”, “aspectos físicos” e “dor”. Isso contrariou dados apontados pela literatura sobre a repercussão do processo ensino‐aprendizagem na qualidade de vida de docentes da área da saúde. Os docentes apontaram o excesso de atividades e a consequente falta de tempo para desempenhar todas elas como fatores estressantes e que interferem na sua qualidade de vida.18 Estudos afirmam que há a necessidade de elaboração de um projeto de intervenção em saúde do trabalhador, para melhorar a condição de trabalho da docente na área da saúde, diminuir o sofrimento psíquico a que estão expostas, melhorar o grau de satisfação na sua vida familiar, amorosa, social, ambiental e consequentemente em sua atividade profissional e contribuir para uma melhor qualidade de vida.19

O estudo apontou que as professoras com doutorado e sem mudanças no ciclo menstrual obtiveram maior escore nos itens “capacidade funcional” e “estado geral de saúde”. A literatura justifica que, de uma maneira geral, o maior nível de escolaridade se associa a uma menor percepção negativa de saúde, é esperado que indivíduos com maior escolaridade tenham mais conhecimento sobre a saúde e hábitos mais saudáveis.20 No entanto, para o domínio “aspectos sociais” ter especialização ou mestrado e não relatar distúrbios menstruais foram associados a maior qualidade de vida. Acredita‐se ser em consequência do menor número de atividades assumidas na universidade em contrapartida com as professoras com maior titulação.

As professoras que não eram tabagistas e que não tinham alteração do ciclo menstrual obtiveram maiores escores nos domínios “capacidade funcional” e “estado geral de saúde”. Isso concorda com estudos que demonstraram maiores escores médios de qualidade de vida para não tabagistas do que fumantes em todos os domínios do SF‐36.21

Docentes que não apresentavam distúrbios menstruais e que não eram obesas obtiveram maiores escores nos domínios “capacidade funcional” e “estado geral de saúde”. A obesidade está associada à diminuição do bem‐estar psíquico, com dificuldade de integração social, baixa autoestima e estigmatização.22 Além disso, pode ter como efeito adicional a redução da capacidade funcional, o que pode refletir na pioria da produtividade profissional.22

Foram encontrados estudos semelhantes quanto ao público‐alvo e quanto aos instrumentos para avaliação da qualidade de vida na docência. No entanto, não se registraram pesquisas que relacionassem a qualidade de vida aos distúrbios menstruais. Um levantamento da qualidade de vida foi feito com fisioterapeutas e professores universitários de Salvador, BA com 36 voluntários de três instituições.23 Outro trabalho mensurou a qualidade de vida relacionada à satisfação no trabalho de 108 professores universitários em Goiás.18 Ainda no Brasil, em Cachoeiro do Itapemirim, ES, 50 (30,30% do total do público‐alvo) professores da graduação foram avaliados também pelo SF‐36, foi feita comparação entre grupo de docentes de cursos da área da saúde e um grupo controle também de professores de outros cursos de graduação não relacionados à área de saúde de uma mesma instituição de ensino.24

Apontam‐se como limitações deste trabalho não ter alcançado respostas da maioria das professoras que trabalham na FURG, a amostra foi constituída por menos da metade da população‐alvo. Portanto, a extrapolação dos dados para todo o conjunto de professoras deve ser feita com cautela, embora se acredite que as associações encontradas sejam válidas para toda a população‐alvo. Além disso, outros estudos que usaram metodologia semelhante obtiveram taxa de resposta ainda menor.25–27 Ainda, pode ter havido um viés de memória em razão da pergunta sobre o período de ocorrência do distúrbio menstrual (qualquer época da vida reprodutiva). Também pelo fato de este trabalho estar inserido em um projeto maior, houve restrições no número de perguntas sobre os distúrbios menstruais, o que limitou a coleta de outras informações relacionadas a essas alterações, por exemplo o tipo de distúrbio.

No entanto, apesar das limitações apresentadas, este estudo proporcionou maior compreensão do perfil das professoras da FURG, possibilitou entender quais as dificuldades enfrentadas e torna possível a criação de políticas para melhorar a qualidade de vida desse público. Ainda, compreender o impacto dos distúrbios menstruais na qualidade de vida dessas mulheres poderá indicar as estratégias para se evitarem repercussões no trabalho, na saúde, nos aspectos sociais e consequentemente na qualidade de vida. Destaca‐se que não foram encontrados outros trabalhos que relacionassem os distúrbios menstruais de maneira geral – apenas que estudassem um distúrbio específico – e a qualidade de vida. Portanto, cabe a necessidade de maiores estudos sobre esse tema.

Conclui‐se que ter distúrbio menstrual impactou negativamente a qualidade de vida das professoras da FURG. O conhecimento do perfil dessa população possibilita um planejamento específico de ações da universidade para melhorar sua qualidade de vida.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Agradecimentos

SCD é bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. LMSA é bolsista de iniciação científica do CNPq.

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Autor para correspondência. (Letícia Maria da Silva Almeida leticiamsalmeida@hotmail.com)
Copyright © 2017. Sociedade Brasileira de Reprodução Humana
Reprod Clim 2017;32:71-7 - Vol. 32 Núm.2 DOI: 10.1016/j.recli.2017.01.003