ISSN on-line: 2358-288X
Reprodução & Climatério Reprodução & Climatério
Reprod Clim 2016;31:86-92 - Vol. 31 Núm.2 DOI: 10.1016/j.recli.2016.08.001
Artigo Original
Disfunções sexuais no climatério
Sexual dysfunction in climacteric
Jéssica de Lima Santosa,b,, , Ana Paula Florindo Leãoc,d,e, Giulliano Gardenghia,f,g,h
a Centro de Estudos Avançados e Formação Integrada (Ceafi), Goiânia, GO, Brasil
b Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva (Sobrati), Brasília, DF, Brasil
c Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil
d Associação Brasileira de Fisioterapia em Oncologia (ABFO), São Paulo, SP, Brasil
e Essencial Clínica Integrada, Goiânia, GO, Brasil
f Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
g Serviço de Fisioterapia, Hospital Encore, Aparecida de Goiânia, GO, Brasil
h Hospital e Maternidade São Cristóvão, São Paulo, SP, Brasil
Recebido 02 Agosto 2016, Aceitaram 16 Agosto 2016
Resumo
Objetivos

Verificar qual disfunção sexual é mais comum nessa população, se o climatério determina perda da atividade sexual; qual dos domínios avaliados mais influencia a resposta sexual feminina; quais domínios avaliados podem oferecer riscos de disfunções sexuais; dispor de técnicas de fisioterapia uroginecológica.

Material e métodos

Estudo transversal qualitativo e quantitativo, feito com 21 funcionárias voluntárias do hospital. Foram incluídas na pesquisa mulheres aparentemente saudáveis entre 35 e 61 anos, funcionárias do hospital, que aceitaram responder ao questionário Female Sexual Function Index (FSFI) e que assinaram o termo de consentimento livre esclarecido (TCLE), excluídas mulheres que apresentaram infecção urinária nas últimas quatro semanas, doenças incapacitantes que afetam o ato sexual, alterações cognitiva, puerpério recente, tumores.

Resultados

Das mulheres, 99% têm vida sexual ativa, 28,6% apresentam desejo sexual hipoativo, os domínios que oferecem risco de possíveis disfunções são o do desejo sexual hipoativo, com média de 54,76, excitação, 64,67, lubrificação, 63,33, e orgasmo, 65,08. O domínio do desejo sexual pode ser um grande influenciador na resposta sexual.

Conclusão

O climatério, com suas mudanças biopsicossociais, repercute de forma direta na vida sexual da mulher e a fisioterapia tem sido um meio eficaz para ajudar as mulheres climatéricas a vivenciar essa fase com melhor qualidade de vida sexual.

Abstract
Objectives

To verify that sexual dysfunction is more common in this population, the climacteric determines loss of sexual activity; which of the domains assessed more influence female sexual response; which assessed areas can pose risks of sexual dysfunction; have urogynecological physiotherapy.

Material and methods

Qualitative and quantitative cross‐sectional study, conducted with 21 volunteers employees of the Hospital, included in the survey apparently healthy women between 35 and 61 years old, hospital employees, who agreed to answer the questionnaire Female Sexual Function Index (FSFI) and They signed an informed consent form (ICF), excluded women who had urinary tract infection in the past four weeks, disabling disease that affects the sexual act, cognitive changes, recent puerperium tumors.

Results

99% of women are sexually active, 28.6% had hypoactive sexual desire, where the areas that offer rich potential dysfunctions are hypoactive sexual desire averaging 54.76 64.67 excitement and lubrication 63.33 65.08 orgasm sexual desire domain can be a major influencer in sexual response.

Conclusion

The climacteric with their biopsychosocial changes has repercussions directly in the woman's sex life and physical therapy has been an effective means to help menopausal women to experience this phase with better quality of sexual life.

Palavras‐chave
Climatério, Sexo, Fisioterapia
Keywords
Climacteric, Sex, Physiotherapy
Introdução

Existem no Brasil cerca de 30 milhões de mulheres entre 35 e 65 anos, o que significa que 32% da população feminina estão na faixa etária em que ocorre o climatério e, com o aumento da expectativa de vida mundial, essa porcentagem tende a aumentar.1

O climatério, do grego Klimater (degrau), é definido por Serrão2 como um “período crítico” da vida de uma mulher. É a fase da vida da mulher na qual ocorre a redução gradual até a cessação da atividade hormonal dos ovários, há a transição da fase reprodutiva para a não reprodutiva.3

Existem quatro estádios do ciclo menstrual: (a) a pré‐menopausa, (b) a perimenopausa, (c) a menopausa, (d) e a pós‐menopausa, que se inicia um ano após a amenorreia.2 Cerca de 60 a 80% das mulheres referem algum tipo de sintomatologia durante o climatério,4 como fogachos, depressão, sudorese, nervosismo, irritabilidade, dor de cabeça, incontinência urinaria, palpitação, insônias e tonturas.5–8 que se inicia aos cerca de 40 anos e pode ser estendido para 65 anos.1,8,9

Essas mudanças fisiológicas podem afetar a vida bio/psico/social da mulher e atingir diretamente a sua sexualidade, já que no sistema urogenital ocorrem alterações que podem levar à diminuição na qualidade do sexo. Essa fase tem significado diferente para cada mulher, para umas é o fim da sexualidade e para outras o começo de novas experiências.6

Bearzoti10 conceitua a sexualidade como energia vital instintiva direcionada para o prazer, passível de variações quantitativas e qualitativas, vinculada à homeostase, à afetividade, às relações sociais, às fases do desenvolvimento da libido infantil, ao erotismo, à genitalidade, à relação sexual, à procriação e à sublimação.

A função sexual adequada é um fator importante de satisfação e qualidade de vida geral.8,11–13 A disfunção sexual feminina (DSF) é altamente prevalente entre as brasileiras, 30% apresentam alguma disfunção sexual e apenas 5% procuram tratamento.7,8,13

É possível estudar a DSF por meio de questionários. Atualmente, o questionário mais usado é o Female Sexual Function Index (FSFI), capaz de identificar o problema em cada um dos seis domínios do instrumento.1,8,12–14

A OMS reconhece a disfunção sexual como problema de saúde pública e recomenda sua investigação por causar importantes alterações na qualidade de vida.11

Nos Estados Unidos, um estudo epidemiológico demonstrou que no climatério ocorre aumento significativo das disfunções sexuais.8 Lorenzi e Saciloto12 mostraram que 25% a 33% das mulheres entre 35 e 59 anos manifestam disfunções sexuais, entre 60 e 65 anos esses percentuais variam de 51% a 75%. As causas de disfunção sexual na mulher podem ser psicogênicas, vasculogênicas, neurogênicas, hormonais e musculogênicas.1,8,13

A DSF é classificada em: transtornos do desejo sexual: desejo sexual hipoativo (DSH); aversão sexual; transtorno de excitação; transtorno do orgasmo feminino: atraso ou ausência persistente ou recorrente de orgasmo, após uma fase normal de excitação sexual; transtornos sexuais dolorosos: dispareunia, vaginismo; disfunção sexual devido a uma condição médica e disfunção sexual induzida por substâncias.15

No climatério a queda dos níveis de estrogênio resulta na diminuição do suporte pélvico e da lubrificação dos tecidos urogenitais, dificulta a atividade sexual. Como também traz mudanças corporais e favorece uma menor autoestima e a perda do desejo sexual.16

Até recentemente, a assistência à mulher climatérica centrava‐se principalmente na terapia hormonal.3 Hoje a fisioterapia constitui um avanço importante nas DSF e oferece avaliação, orientações sexuais, técnicas de abordagem comportamental, exercícios perineais, uso de cones vaginais, eletroterapia, calor, biofeedback, perineômetro.17

A disfunção sexual gera desconforto e mexe com o psicológico das mulheres, compromete a qualidade de vida. Sabe‐se que o climatério é um influenciador na qualidade de vida dessas mulheres e a satisfação sexual, um importante marcador de bem‐estar. E que poucos ainda são os estudos sobre esse tema. Esta pesquisa veio acrescentar, com o objetivo de verificar qual disfunção sexual é mais comum nessa população, verificar se a perda da atividade sexual e qual dos domínios avaliados mais influenciam a resposta sexual feminina, se algum dos domínios avaliados pode oferecer riscos de disfunções sexuais e dispor de técnicas de fisioterapia nas principais disfunções sexuais femininas verificadas.

Metodologia

Estudo transversal qualitativo e quantitativo, feito em um hospital privado de Goiânia (GO). O estudo foi feito com 21 funcionárias voluntárias do hospital, entre 35 e 61 anos, que estão no climatério e que aceitaram responder ao questionário Female Sexual Function Índex (FSFI). Foram incluídas mulheres aparentemente saudáveis funcionárias, que assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE), e excluídas mulheres que apresentaram infecção urinária nas últimas quatro semanas, doenças incapacitantes que afetam o ato sexual, alterações cognitivas, puerpério recente, tumores e aquelas que se recusaram a assinar o TCLE. Foram usados como instrumento de coleta de dados o questionário FSFI e o questionário sociodemográfico. O FSFI é um questionário construído e validado na língua inglesa, traduzido por dois professores de inglês, brasileiros, cientes dos objetivos da pesquisa e fluentes no idioma inglês. É específico e multidimensional, a resposta sexual feminina, é composto por 19 questões, que informam sobre cinco domínios da resposta sexual: desejo e estímulo subjetivo, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor ou desconforto. As pontuações individuais são obtidas pela soma dos itens que compreendem cada domínio (escore simples), que são multiplicadas pelo fator desse domínio e fornecem o escore ponderado. A pontuação final (escore total: mínimo de 2 e máximo de 36) é obtida pela soma dos escores ponderados de todos os domínios. Um escore 0 dentro de cada domínio indica que a paciente relatou não ter tido atividade sexual nas últimas quatros semanas. O presente projeto de pesquisa somente teve início após avaliação e aprovação da Comissão de Ética em Pesquisa da Faculdade União de Goyazes (CEP/FUG) e a apresentação da carta de aprovação do trabalho pela FUG, protocolo 008/2013‐1, ao hospital. Foram necessárias seis visitas aos sábados e domingos com as funcionárias do hospital privado de Goiânia, nas quais responderam ao questionário FSFI em um ambiente iluminado, arejado e com condições para que a coleta de dados fosse individualizada e confidencial. As participantes foram esclarecidas sobre o estudo e aquelas que aceitaram participar assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido em atenção à Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. O questionário é autoaplicável, teve duração média de 20 minutos e o horário foi definido de acordo com a rotina do hospital. Foram garantidos às participantes anonimato e liberdade de retirar o consentimento a qualquer tempo, sem penalidade. As informações obtidas pela pesquisadora serão armazenadas durante cinco anos e posteriormente incineradas.

Os dados foram analisados com o programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS, versão 15.0). As variáveis quantitativas foram apresentadas em números absolutos, médias, medianas, desvios padrão, mínimas e máximas. As distribuições dessas variáveis foram analisadas pelo teste de Kolmogorov‐Smirnov. As variáveis qualitativas foram apresentadas em números absolutos e proporções. Para a análise de correlações, foi usado o índice de correlação de Spearman e foram considerados um intervalo de confiança de 95% e um nível de significância de 5% (p<0,005).

Resultados

A idade média das mulheres entrevistadas neste estudo foi de 45,62, com desvio padrão de 7,23, média de 44 anos, mínima de 35 e máxima de 61 anos (tabela 1). Das entrevistadas, 9,5% têm ensino superior completo, 4,8% superior incompleto, 14,3% ensino fundamental completo, 28,6% ensino fundamental incompleto, 28,6% ensino médio completo e 14,3% não responderam. Quanto ao estado civil, 61,9% das participantes são casadas, 9,5% divorciadas, 4,8 viúvas, 23,8% solteiras; 25% das solteiras têm parceiros fixos, enquanto 75% têm parceiros casuais. No que se refere à opção sexual, 100% das participantes são heterossexuais e 95,2% tem vida sexual ativa (tabela 2).

Tabela 1.

Média, desvio padrão, mediana, mínima e máxima acerca da idade e carga horária de trabalho das participantes

  Média  DP  Mediana  Mínima  Máxima 
Idade  45,62  ± 7,23  44,0  35  61 
Carga horária de trabalho (dia)  8,06  ± 1,47  8,0  6,3  12,0 

DP, desvio padrão.

Tabela 2.

Resultados acerca de escolaridade, função exercida, estado civil e opção sexual da amostra

 
Escolaridade  28,6 
Fundamental incompleto  14,3 
Fundamental completo  –  – 
Médio incompleto  28,6 
Médio complete  4,8 
Superior incomplete  9,5 
Superior complete  14,3 
Não respondeu     
Função
Lavadeira  19,0 
Copeira  14,3 
Cozinheira  19,0 
Auxiliar de serviços gerais  19,0 
Técnico de enfermagem  4,8 
Secretária  4,8 
Recepcionista  4,8 
Encarregada de departamento de pessoal  4,8 
Encarregada de serviços gerais  4,8 
Não respondeu  4,8 
Estado civil
Solteira  23,8 
Casada  13  61,9 
Divorciada  9,5 
Viúva  4,8 
Caso seja solteira (n=8):
Parceiro fixo  25,0 
Parceiros casuais  75,0 
Opção sexual
Heterossexual  21  100,0 
Tem vida sexual ativa?
Sim  20  95,2 
Não  4,8 

n, frequência; %, porcentagem.

A respeito dos domínios sexuais no domínio do desejo, 28,6% disseram ter sentido quase ou nunca desejo sexual, para 23,8% o grau de interesse baixou ou é absolutamente nenhum (tabela 3). Referente ao domínio de excitação, 33,3% se sentiam poucas vezes sexualmente excitadas durante a atividade sexual, 47,6% falaram ter um grau de excitação moderado e 28,6% baixo; 38,1% se sentiam moderadamente seguras, porém 42,9% se sentiam satisfeitas com a frequência de satisfação com o grau de excitação (tabela 4).

Tabela 3.

Domínio do desejo. Resultados descritivos acerca dos itens que compõem o domínio desejo do FSFI

 
Frequência em que sentiu desejo ou interesse sexual
Quase nunca ou nunca  28,6 
Poucas vezes  14,3 
Algumas vezes  14,3 
A maioria das vezes  19,0 
Quase sempre ou sempre  23,8 
Grau de desejo/interesse sexual
Muito baixo ou absolutamente nenhum  23,8 
Baixo  19,0 
Moderado  38,1 
Alto  19,0 
Muito alto  –  – 

n, frequência; %, porcentagem.

Tabela 4.

Domínio de excitação. Resultados descritivos acerca dos itens que compõem o domínio excitação do FSFI

 
Frequência em que se sentiu sexualmente excitada durante a atividade sexual
Sem atividade sexual  4,8 
Quase nunca ou nunca  33,3 
Poucas vezes  14,3 
Algumas vezes  14,3 
A maioria das vezes  33,3 
Quase sempre ou sempre     
Grau de excitação durante a atividade sexual
Sem atividade sexual  4,8 
Muito baixo ou absolutamente nenhum  4,8 
Baixo  28,6 
Moderado  10  47,6 
Alto  14,3 
Muito alto  --‐  --‐ 
Grau de segurança
Sem atividade sexual  4,8 
Segurança muito baixa ou sem segurança  --‐  --‐ 
Segurança baixa  14,3 
Segurança moderada  38,1 
Segurança alta  19,0 
Segurança muito alta  23,8 
Frequência de satisfação com o grau de excitação durante a atividade sexual
Sem atividade sexual  4,8 
Quase nunca ou nunca  9,5 
Poucas vezes  4,8 
Algumas vezes  23,8 
A maioria das vezes  14,3 
Quase sempre ou sempre  42,9 

n, frequência; %, porcentagem.

Quanto ao domínio de lubrificação, 38,1 disseram ter quase sempre ou sempre lubrificação vaginal durante o ato sexual e 9,5 quase nunca ou nunca; 23,8% que é muito difícil ter lubrificação vaginal durante o ato sexual; 9,5% que é extremamente difícil; 33,3% que é ligeiramente difícil; 19% que não é nada difícil; e 4,8% não responderam a questão; 9,5% consideram extremamente difícil ou impossível manter a lubrificação vaginal até o fim do ato sexual, 9,5% ser muito difícil, 23,8% ser difícil, 23,8% ser ligeiramente difícil, 19% nada difícil e 4,8% não responderam à questão (tabela 5).

Tabela 5.

Domínio de lubrificação. Resultados descritivos acerca dos itens que compõem o domínio lubrificação do FSFI

 
Frequência de lubrificação vaginal durante o ato sexual
Sem atividade sexual  4,8 
Quase nunca ou nunca  9,5 
Poucas vezes  4,8 
Algumas vezes  9,5 
A maioria das vezes  23,8 
Quase sempre ou sempre  38,1 
Como avalia sua dificuldade de ter lubrificação vaginal durante o ato sexual
Sem atividade sexual  4,8 
Extremamente difícil ou impossível  4,8 
Muito difícil  9,5 
Difícil  23,8 
Ligeiramente difícil  33,3 
Nada difícil  19,0 
Não respondeu  4,8 
Frequência em que manteve a lubrificação vaginal até o fim do ato sexual
Quase nunca ou nunca  23,8 
Poucas vezes  23,8 
Algumas vezes  19,0 
A maioria das vezes  4,8 
Quase sempre ou sempre  28,6 
Qual foi sua dificuldade de manter a lubrificação vaginal até o fim do ato sexual
Sem atividade sexual  9,5 
Extremamente difícil ou impossível  9,5 
Muito difícil  9,5 
Difícil  23,8 
Ligeiramente difícil  23,8 
Nada difícil  19,0 
Não respondeu  4,8 

n, frequência; %, porcentagem.

Sobre o domínio do orgasmo, 9,5% disseram que o grau de dificuldade de atingir o orgasmo era extremamente difícil, 14,3% muito difícil, 9,5% difícil, 38,1% ligeiramente difícil, 23,8% nada difícil, 4,8% se sentem muito insatisfeitas com a sua capacidade de atingir o orgasmo, 19% muito satisfeitas, 4,8% moderadamente insatisfeitas, 19% quase igualmente satisfeita e insatisfeita, 2,9% moderadamente satisfeita e 9,5% muito satisfeita (tabela 6).

Tabela 6.

Domínio de orgasmo. Resultados descritivos acerca dos itens que compõem o domínio orgasmo do FSFI

 
Frequência em que atingiu o orgasmo
Sem atividade sexual  4,8 
Quase nunca ou nunca  4,8 
Poucas vezes  9,5 
Algumas vezes  38,1 
A maioria das vezes  19,0 
Quase sempre ou sempre  23,8 
Grau de dificuldade em atingir o orgasmo
Sem atividade sexual  4,8 
Extremamente difícil ou impossível  9,5 
Muito difícil  14,3 
Difícil  9,5 
Ligeiramente difícil  38,1 
Nada difícil  23,8 
Grau de satisfação com sua capacidade de atingir o orgasmo
Sem atividade sexual  4,8 
Muito insatisfeita  19,0 
Moderadamente insatisfeita  4,8 
Quase igualmente satisfeita e insatisfeita  19,0 
Moderadamente satisfeita  2,9 
Muito satisfeita  9,5 

n, frequência; %, porcentagem.

Em relação ao grau de satisfação com a proximidade emocional com o parceiro, 9,5% disseram ser muito insatisfeitas, 4,8% moderadamente insatisfeitas, 4,8% quase igualmente satisfeitas e insatisfeitas, 23,8% moderadamente satisfeitas, 52,4% muito satisfeitas; 14,3% que o grau de satisfação com o relacionamento sexual com o parceiro é muito insatisfeito, 4,8% moderadamente insatisfeito, 9,5% quase igualmente satisfeito e insatisfeito, 42,9% moderadamente satisfeito, 23,8% muito satisfeito, 4,8% não responderam; 9,5% afirmam que o grau de satisfação com a vida sexual de um modo geral é muito insatisfeito, 4,8% moderadamente insatisfeito, 14,3% quase igualmente satisfeito e insatisfeito, 52,4% moderadamente satisfeito, 19 muito satisfeito (tabela 7).

Tabela 7.

Domínio de satisfação. Resultados descritivos acerca dos itens que compõem o domínio satisfação do FSFI

 
Grau de satisfação com a proximidade emocional com o parceiro
Sem atividade sexual  4,8 
Muito insatisfeita  9,5 
Moderadamente insatisfeita  4,8 
Quase igualmente satisfeita e insatisfeita  4,8 
Moderadamente satisfeita  23,8 
Muito satisfeita  11  52,4 
Grau de satisfação com o relacionamento sexual com o parceiro
Muito insatisfeita  14,3 
Moderadamente insatisfeita  4,8 
Quase igualmente satisfeita e insatisfeita  9,5 
Moderadamente satisfeita  42,9 
Muito satisfeita  23,8 
Não respondeu  4,8 
Grau de satisfação com a vida sexual de um modo geral
Muito insatisfeita  9,5 
Moderadamente insatisfeita  4,8 
Quase igualmente satisfeita e insatisfeita  14,3 
Moderadamente satisfeita  11  52,4 
Muito satisfeita  19,0 

n, frequência; %, porcentagem.

A respeito do item que compõe o domínio da dor, 52,4% disseram ser muito baixo ou absolutamente nenhum grau de desconforto/dor durante ou após a penetração vaginal, 4,8% muito alto, 4,8% alto, 23,8 moderados e 9,5% baixo (tabela 8).

Tabela 8.

Domínio de dor. Resultados descritivos acerca dos itens que compõem o domínio dor do FSFI

 
Frequência em que teve dor/desconforto durante a penetração vaginal
Não tentei ter relação  4,8 
Quase sempre ou sempre  14,3 
A maioria das vezes  9,5 
Algumas vezes  9,5 
Poucas vezes  4,8 
Quase nunca ou nunca  11  52,4 
Não respondeu  4,8 
Frequência em que teve dor/desconforto após a penetração vaginal
Não tentei ter relação  4,8 
Quase sempre ou sempre  9,5 
A maioria das vezes  9,5 
Algumas vezes  9,5 
Poucas vezes  4,8 
Quase nunca ou nunca  13  61,9 
Grau de desconforto/dor durante ou após a penetração vaginal
Não tentei ter relação  4,8 
Muito alto  4,8 
Alto  4,8 
Moderado  23,8 
Baixo  9,5 
Muito baixo ou absolutamente nenhum  11  52,4 

n, frequência; %, porcentagem.

A figura 1 mostra os resultados em percentuais acerca do domínio do desejo. Ele está com média de 54,76 ± 25,81 e mediana de 60; 20 representam ruim e 90 ótimo. O domínio de excitação tem média de 64,76 ± 23,69 e mediana de 65, 0 representa ruim e 95 ótimo. Na lubrificação, média de 63,33 ± 26,14, 5 representa ruim e 100 ótimo. No orgasmo, média de 65,8 ± 27,24, mediana de 66,67, 0 representa ruim e 100 ótimo. Na satisfação, média de 73,33 ± 26,50, mediana de 80; 6,67 representa ruim e 100 ótimo. Na dor, média 74,28 ±31,85, mediana de 93,33, 0 representa ruim e 100 ótimo.

Figura 1.
(0.09MB).

Resultados acerca dos domínios avaliados pelo questionário FSFI.

Discussão

A sexualidade das mulheres no climatério é ainda objeto de ideias e tabus preconcebidos e a sociedade tem acreditado que as mulheres que não estão em período reprodutivo são assexuadas ou incapazes de praticar a sexualidade.9 Lorenzi e Saciloto12 mostraram que nessa fase ocorre apenas uma diminuição da frequência da atividade sexual e que 85% das pacientes entrevistadas eram sexualmente ativas.6,8,16 De Paula et al.18 ressaltam em pesquisa com 400 mulheres usuárias do Setor de Climatério que 82,7% eram sexualmente ativas. O que corrobora os achados deste estudo, no qual 99% das mulheres se encontram sexualmente ativas. Abdo e Oliveira, em pesquisa feita no Brasil com 4.753 ginecologistas, disseram que a queixa principal de procura por consultas em seus consultórios era o DSH.19 Pedro et al.20 mostram em pesquisa com 456 mulheres no climatério, residentes em Campinas (SP) o DSH como a queixa mais frequente.

As queixas sexuais são prevalentes durante toda a vida reprodutiva, mas durante o climatério as mulheres podem ficar mais vulneráveis à DSF, devido à interação de vários fatores.16,21,22 A atrofia vaginal tem impacto significativo sobre o funcionamento sexual e pode afetar todos os domínios da função sexual, incluindo o desejo sexual.23 Isso corrobora o presente estudo, no qual 28,6% das mulheres entrevistadas afirmaram que quase nunca ou nunca sentiram desejo ou interesse sexual. Obteve‐se assim o percentual mais baixo de 54,28, comparado com o dos outros domínios avaliados com o questionário FSFI.

A atrofia vulvovaginal causada pela deficiência de estrogênio na pós‐menopausa leva ao afinamento do epitélio vaginal, à perda de elasticidade, ao aumento do pH vaginal, à redução da lubrificação e a alterações na sensação genital, ao ressecamento vaginal e à dispareunia, sintomas muito comuns nessa fase.22 Em um estudo em uma população de mulheres na pré‐menopausa, a queixa sexual mais comum foi o DSH (77%), a disfunção de excitação (62%) e a dificuldade de alcançar o orgasmo referida por 56% das pacientes.19,24 O presente estudo mostrou que o domínio do desejo referido com um percentual de 54,76, excitação, 64,76, lubrificação 63,33 e orgasmo 65,08 são os que podem oferecer possíveis ricos de disfunção sexual. Isso corrobora outros estudos, nos quais as DSF prevalentes nessa fase foram DSH, diminuição da lubrificação, anorgasmia e dispareunia.25 Porém, a dispaurenia nesta pesquisa apresentou ser a DSF menos frequente nessa fase (fig. 1).

Ao se aproximar da menopausa, as mulheres trazem dúvidas sobre as modificações físicas que irão ocorrer e de como lidar com elas.1,26 Mostram assim que a vida sexual nessa fase, assim como em todas as outras, precisa ser entendida em um contexto mais ampliado, que deve levar em consideração a vivência, o contexto histórico, social, econômico e cultural em que a mulher se insere.27 Por isso, faz‐se necessário uma abordagem integrativa para prevenir, minimizar ou tratar disfunções sexuais advindas dessa fase e a fisioterapia é um recurso valoroso para auxiliar na resolução das disfunções sexuais e na melhoria na qualidade de vida dessas mulheres.

Como a sexualidade envolve a percepção e o controle do corpo e como a vida é movimento, é importante adequar esse movimento do corpo no decorrer do climatério e envelhecimento, assumir limitações impostas pelas mudanças corporais, cientes de que elas são parte da evolução natural dos indivíduos e ferramentas usadas para o amadurecimento e crescimento dos seres humanos.28 A cinesioterapia, recurso usado por fisioterapeutas, auxilia no treino da consciência corporal e no fortalecimento dos músculos do assoalho pélvico (MAP),15,17,29 contribui para os casos de redução do desejo e da excitação, lubrificação e dificuldade para atingir o orgasmo, pois melhoram a lubrificação da região e o recrutamento muscular local.30 Informações sobre anatomia e fisiologia sexual, aconselhamento aos casais, exercícios de Kegel e de dilatação vaginal com os próprios dedos e do parceiro, relaxamento muscular semanal por FES e biorretroalimentação, lubrificantes e dilatadores vaginais de silicone em quatro tamanhos, quando indicados, são excelentes para as DSF.31

Outros recursos são o biofeedback, aparelho que mensura, avalia e trata disfunções sexuais por estímulos táteis, usado para elaboração e aprendizado dos MAP, a eletroestimulação e a massagem perineal para o alívio da dor e relaxamento dos MAP nos casos de dispareunia e vaginismo.17,30,31 A atividade física também contribui, reduz a intensidade dos sintomas vasomotores e leva a uma sensação de maior bem‐estar no climatério.4 Os estudos têm mostrado que os sintomas climatéricos parecem ser menos intensos entre as mulheres que se exercitam regularmente.27,28 No entanto, pouco ainda se conhece acerca das implicações da menopausa na qualidade de vida da mulher.32 É importante que venham novos estudos sobre as DSF no climatério e como intervir, pois as mulheres, com o avançar da idade, têm mostrado a necessidade de falar sobre esses conflitos, que se manifestam, intensificam ou ressurgem nessa fase.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
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Trabalho desenvolvido no Hospital São Lucas, Goiânia, GO, Brasil.

Autor para correspondência. (Jéssica de Lima Santos jhessica_ls@hotmail.com)
Copyright © 2016. Sociedade Brasileira de Reprodução Humana
Reprod Clim 2016;31:86-92 - Vol. 31 Núm.2 DOI: 10.1016/j.recli.2016.08.001